Sobre o Artista

Fotografia: Luana Tayze para Som Sem Plugs

Marcelus Bob – Por Eduardo Alexandre Garcia

Avenida João XXIII, 861. Esse é um dos endereços mais antigos do bairro de Mãe Luíza. A família de seu José Pedro de Farias Filho e dona Odete do Carmo Farias, pais do artista plástico Marcelus Bob, aí chegou numa noite de sexta-feira, 13, em agosto de 1966, quando o menino ainda tinha 8 anos de idade. No entorno desta que é hoje a principal artéria do bairro, tão somente 12 barracos existiam. Os Farias são das famílias mais antigas a habitarem o lugar. Seu pai, um aeromodelista, brevetado pelo Aero Clube para voos verdadeiros, era um apaixonado pela aviação: artista, manteve a família com os ganhos obtidos com as vendas de pequenos aviões, reproduções minunciosamente trabalhadas, peças hoje espalhadas mundo afora, inclusive em outros países das Américas e Europa.

 

O menino Marcelino William de Farias, nascido na Maternidade Januário Cicco, a 03 de Março de 1958, foi o primeiro aluno matriculado no Grupo Escolar Monsenhor Pegado, o primeiro estabelecimento de ensino da comunidade que nascia.

 

Foi menino feliz naquele lugar, que, com ele, também crescia. Gostava de empinar corujas, tomar banho de chuva, jogar biloca, como muitas outras crianças do bairro, que tinham como diversão maior o descer dunas em “tábua de morro”, esporte/diversão hoje chamado surf de areia.Seu encantamento eram as lâminas de luz do farol, que rasgavam a escuridão das noites, “lampejo que lambia a Mata Atlântica, acariciando as dunas.”

 

Luz elétrica não havia no lugar. A água, de que precisava a casa, vinha da Cacimba do Boi, no “Barro Duro”, deixada pela base militar de apoio ali montada pelo Exército Brasileiro quando da II Guerra Mundial, ou de um cacimbão que havia na Praia do Pinto. O lugar ainda não era bairro nem se chamava Mãe Luíza: era o Novo Mundo, para o qual, muitos dos que chegavam dos interiores à cidade acorriam para dali fazer residência.

 

No Grupo Escolar Monsenhor Pegado, concluiu o curso primário e, dali, foi estudar na Escola Estadual Winston Churchill, na Cidade Alta, onde fez o Ginasial, e, depois, na então chamada Escola Técnica Federal do RN, hoje Instituto Federal de Educação, na Quinze, na parte que dá para o Tirol, fez o curso técnico de Mineração. Fundista, disputava provas de velocidade e resistência nos 3, 5 e 10 mil metros pela “Escola”.

 

Foi na ETFRN que ele tomou gosto pela pintura. Uma história comum a muitos dos artistas plásticos que hoje pontificam nas artes do Rio Grande do Norte. O artista plástico Thomé Filgueira era, ali, professor de Inglês. Estava aplicando uma prova na sala em que Marcelino era aluno. Absorto, o aluno, em vez de responder às questões sugeridas, desenhava no verso do papel uma representação de Mick Jagger, o líder da banda de rock londrina, The Rolling Stones, da qual era fã. O professor se postou por trás e o rapazote tremeu, esperando a reprimenda:-Você leva jeito para a pintura, disse-lhe Thomé. Estamos inaugurando um ateliê aqui na Escola. Apareça por lá! Marcelino aceitou o convite e desde então não parou mais de pintar, assinando seus trabalhos com o nome artístico Marcelus Bob.

 

Uma única pergunta ele fez ao mestre: o que devo pintar? Thomé lhe respondeu:

-Um verdadeiro artista deve exprimir o que sente. E nada fez para interferir na criação livre de seus discípulos. Orientava, mas não impunha regras. Thomé agia assim com todos os seus alunos. Para Marcelus Bob, hoje consagrado entre oscem maiores artistas plásticos de vanguarda do mundo, segundo a revista alemã especializada Neue Blätter, Thomé é o maior impressionista brasileiro de todos os tempos. Marcelus Bob, apesar de supersticioso –sempre sai por trás de uma cadeira na qual sentou –, nunca acreditou na maldição do número 13 nem no dito desgosto do mês de agosto. Foi no 13 de agosto de 1980 que abriu sua primeira exposição individual, “Marcelus Bob expõe: Sol”. Vendeu, no mesmo dia, 16 dos 20 trabalhos expostos na Galeria da Biblioteca Pública Câmara Cascudo.

 

Artista plástico dos mais premiados em concursos e salões realizados no Rio Grande do Norte , ele lembra um em especial, o prêmio Governador do Estado, que, com o dinheiro, comprou comprou carro popular novinho, zero quilômetro. “Naquele tempo, o salão premiava com generosidade: hoje, salões nem mais existem. Os últimos, que por aqui houve, pagavam prêmios tão mesquinhos que mal davam para pagar telas e tintas utilizadas para a confecção das obras. ”Marcelus vive o bairro onde chegou menino, nele cresceu e reside até hoje. Conhece quase todos os moradores. É cumprimentado em todos os recantos por onde passa: na Bacia, no Alto da Colina, no Barro Duro, na Cabeça do Morro. Todos o respeitam e o admiram: é um dos orgulhos dali.

 

Seguindo o conselho do mestre Thomé Filgueira, pinta o que sente, e Mãe Luíza que corre em suas veias: pinta o bairro, seus bares, suas dunas, o farol, sua gente, seus costumes. Não se conformou em ter sua arte confinada às telas, buscou as paredes da cidade: foi um dos seus primeiros grafiteiros. Não existe na cidade ninguém que já não tenha se deparado com um dos seus humanoides em alguma parede: são seres bizarros, intrigantes, sempre encapuzados. É, com eles, os humanoides, que Marcelus revela um dos aspectos mais marcantes de sua obra: é instigante, provocativo, inconformado. Sua arte não é uma arte qualquer. É maldita, gera admiração e, às vezes, repulsa. Ninguém fica indiferente diante dela. É uma arte que mexe com quem a contempla. Uma arte que faz refletir.

Bibliografia
GARCIA, Eduardo Alexandre. Lagoas azuis ao ponto negro – minha cidade Natal – Lugares, Gente, História . Ed. Natal: Offset, 2018.